Eu milito, tu militas

Das coisas que mais me envergonho quando olho pra trás, a pior com certeza são as concepções absurdas que eu tinha sobre o “papel” de cada grupo de pessoas na sociedade, e seus direitos e deveres. Não que eu tenha culpa, desde pequena fui criada pra amar e tolerar, e apesar de uma ou outra babaquice que vi e ouvi de perto nos meus núcleos mais próximos, tive a sorte de estar rodeada e ser criada por pessoas muito justas e tolerantes (o que não passa de obrigação de todos nós, diga-se de passagem). Mas ainda assim, somos parte de um contexto, e não fui abençoada com uma mente brilhante, capaz de relevar tudo que eu percebia ao meu redor e compreender por conta própria o quanto é fundamental e urgente a adoção da igualdade plena. feminismo

Opressora oprimida x oprimida opressora

Em especial no que diz respeito a assuntos de gênero ou orientação sexual, eu não compreendi até poucos anos atrás a dimensão dos termos “respeito” e  “igualdade de direitos”, pela qual se deve lutar sem restrições, sem poréns. Sempre condenei e lutei contra a homofobia com paixão, não me entendam mal. Provavelmente foi a primeira bandeira que levantei, desde muito nova, e continuo firme na luta. Mas me declaro culpada de ter defendido posições completamente absurdas que classificavam transexuais como pessoas indignas de respeito, e que “ah, mas casamento gay já é demais, né gente?”. Confesso que (deus me livre) julgava a promiscuidade feminina, a coragem feminina, as lutas femininas por liberdade. E as lutadoras, militantes da causa eu tinha o péssimo hábito de classificar como “gente à toa tentando chamar a atenção”. E devo ter falado alguma vez que isso é “falta de homem”. 

eu devo tanto à marcha das vadias por abrir meus olhos pra minha própria opressão <3 :')

eu devo tanto à marcha das vadias por abrir meus olhos pra minha própria opressão

Tudo errado. A menina mente-aberta (termo besta) e tolerante que eu acreditava ser, e que pra época provavelmente eu era, não passava de uma preconceituosa enrustida. Dói lembrar disso, mas tenho o resto da vida pra me redimir. Não acho que o tempo me fez desenvolver o caráter perfeito e tenho consciência de que militar por causas nobre e urgentes é parte do espírito do nosso tempo. A moçada que vai fundo pra exterminar a crueldade com animais, o pessoal engajado em política que manifesta pelo fim da corrupção, os defensores do meio ambiente (que eu tinha o hábito ridículo de chamar de ecochatos ¬¬ ) que não se calam e lutam dia após dia por mais respeito ao nosso planeta… natalia 070_ed

Abre essa boca

Estamos todos com o megafone pendurado no pescoço, atentos, vigilantes, atuando na medida do possível, dando o melhor de nós mesmos, e comigo não é diferente. E esse (bendito) megafone todo mundo sabe qual é. A popularização da internet foi o que nos deu a capacidade de unir forças a favor das coisas necessárias e, insisto, urgentes. Então sou mais uma militante respondendo a essa ânsia, essa urgência, de usar os instrumentos à mão pra lutar pelo que se acredita. Não me tornei uma pessoa melhor, não, mas tenho vivido. E artigos foram lidos, posts foram compartilhados, fichas foram caídas e hoje eu enxergo bem melhor. E abraço minhas causas com a força que elas merecem, não me calo, e milito MESMO. Da forma que estiver ao meu alcance.

internet-militância

O útil, o agradável e o urgente

Chega de empatia seletiva

Em todo esse processo, o que ficou claro pra mim e é o que tento sempre passar adiante nos bate-papos bacanas que tenho tido recentemente é (segura que lá vem clichê): a liberdade de ser precisa ser completa, ou ela não tem valor. Completa, total e plena. Se você se apegar a algum estigma social pra discriminar ou segregar qualquer grupo, se você colocar um “mas” no fim da sua frase, repense. Não tem essa de “mulher tem mesmo que ser guerreira, lutar pelo que quer. Mas precisa ser feminina!” Não precisa não. Ponto final. Ou ainda “claro que não tenho problemas com homossexuais, mas travesti…”. Lembre-se que preconceito não é opinião, é crime. Igual atropelar um pedestre não é direito de ir e vir (é crime também). Repense e respeite, e abrace a igualdade plena, mesmo se ela te tirar da sua zona de conforto ou se mudar os planos que você tinha pra humanidade. Porque essa é uma obrigação sua, nossa, tão forte quanto o nosso direito de ser .

Leitura sugerida: Uma carta aberta às pessoas privilegiadas.

* Imagens: Pashion

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